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  • M. Marinho

O Voto dos Ressentidos

Resta evidente o fosso gigantesco que separa os/as brasileiros(as) sem mandato daqueles(as) que os ostentam. Há vários estudos que sinalizam, há tempos, que a representação que as pessoas possuem sobre a política e a maioria de seus atores é péssima, assumindo definições como: “lixo”, “corrupção”, “ladrões” e coisas do gênero.


Além de manifestar sua ojeriza, grande parte da população resume o significado da Política ao exercício de mandatos, jogando sobre ela todo o ranço, rancor e ressentimento que acumulou durante a vida. Desconhecendo as relações de poder que se manifestam através da ação política, e sendo igualmente incapaz de escrutinar as entrelinhas das comunicações que recebe via mídias tradicionais e novas, a população/audiência fica condicionada a reagir às “verdades” que lhes são projetadas nas telas conectadas aos bastidores do poder.


Influenciada por slogans que prometem resumir tudo aquilo que é necessário saber para se tomar a decisão de apoiar ou rechaçar uma ideia, um projeto, outras opiniões e até novos “produtos” que surgem, a população/audiência limita-se a executar ações que não lhe tomem demasiado tempo e não ameacem sua “liberdade”.

Porém, Zigmunt Bauman nos lembra que para haver liberdade é preciso que haja recursos para exercê-la. E um recurso fundamental é o conhecimento, pois sem ele é fácil crer que se é livre para decidir, agir e se expressar, sem que se perceba que, na verdade, o que se possui é apenas a sensação de liberdade - algo limitado e formatado para servir de moderador do comportamento dos que estão na outra ponta das relações de poder, a ponta que obedece, como diria Foucault.


Se há dificuldades para realizar uma reforma/deforma e/ou a popularidade está mal, criemos a guerra. Esta é uma prática antiga na política mundial. Usa-se um dos artifícios que mais impacta as pessoas, o medo – que na maioria das vezes ajudou-se a disseminar -, para alterar a percepção de quem pode se levantar contra o status quo. Em ano eleitoral, momento onde é crucial manter o controle sobre a agenda que poderá influir sobre os votos, o jogo de poder passa a ser travado com táticas mais duras e incisivas. Neste cenário, usar a imagem de uma das instituições mais bem quistas pelos brasileiros, as Forças Armadas, ignorando os riscos de arranhar tal imagem, é bastante útil.


Sendo assim, cientes das expectativas e frustrações que direcionam o voto, muitos(as) candidatos(as) passarão a desenhar suas estratégias eleitorais tendo por base o ressentimento e o medo capazes de catalisar o discurso e gerar a adesão de que precisam. Não se engane, o ressentimento é uma força poderosa na hora da decisão do voto. Talvez mais até do que a esperança.


O ressentimento é um sentimento do “homem de rebanho”, segundo Nietzsche, de quem não se levanta para defender e/ou possuir aquilo que deseja, mas coloca-se na condição de vítima daqueles que o conseguem. O ressentido quer alguém que cumpra sua vingança, pois não se vê em condições de vingar-se. Neste momento, o ano eleitoral, temos o campo farto para aqueles(as) que conseguirem vender-se como espadas da justiça, como quem vem cobrar da humanidade, dos políticos, dos governos, tudo aquilo que aos seus seguidores não foi concedido.


Não me refiro aos despossuídos, aos homens e mulheres que compõem as franjas mais carentes e esquecidas da sociedade, pois esses sequer sonham com liberdade o quanto sonham com sobreviver. Falo dos ressentidos que reclamam da carestia dos novos carros, das viagens de avião, dos sapatos e vestidos novos, das bebidas finas e baladas da moda. Falo do ressentimento de uma pseudo classe média, inflada em suas expectativas por governos que acreditavam que o maior legado a deixar era o poder de compra, ao invés da educação. São essas pessoas, principalmente, que se unem em rebanhos ressentidos que não lutam, não questionam, apenas mugem e seguem o som do berrante que melhor lhes é tocado.


Marcos Marinho

Professor e Consultor em Comunicação Política.

(@mmarinhomkt)


*Texto publicado originalmente em fevereiro de 2018.

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