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  • M. Marinho

Jogo dos mitos


Já resta claro que somos uma nação que aprecia mitos e heróis. Francamente posso dizer que somos até bem carentes de expoentes que nos sirvam de modelo ou, para alguns, objeto de culto e adoração.

O povo brasileiro vira e mexe está atrás de alguma figura pública que pareça ser superior em algum quesito, capaz de realizar proezas e vencer inimigos por mérito e esforço próprios. Uma lenda urbana que pode ser contade de várias formas: dom, meritocracia, benção e por aí vai.

O certo é que as figuras que conseguem se vender como sobre-humanas, seja pelo motivo que for, ocupam um espaço especial na vida de muitas pessoas e isso também acaba por sobrecarregá-las com expectativas diretamente proporcionais ao mito que constroem e alimentam ao redor de si. Mas isso tem um preço.

O preço de uma vaga no Olimpo dos iluminados é a impossibilidade de ver sua humanidade exposta, é a tensão diuturna de saber que não se pode sangrar em público.

A idolatria só se sustenta enquanto a expectativa de ser abençoado, protegido, acolhido pelo objeto de culto é mantida. Quando há a dúvida, quando o cristal demonstra alguma imperfeição, a chave do amor facilmente pode ser virada para o ódio, para a violência, para o sentimento de traição e, aí, as odes rapidamente se transformam em vaias e os beijos em linchamento.

A política não é o espaço dos mitos, não pode ser. É preciso que isso fique claro para todos! A Política é o espaço da ação humana, das falhas que precisam de correção, das demandas variadas e, muitas vezes, conflitantes. É o espaço da dúvida, dos questionamentos, dos embates, das convergências, polêmicas e paixões. Coisas humanas, feitas por e para seres humanos. E é isso que a faz tão importante para ser tratada como algo místico e entregue a personagens de folhetim e redes sociais digitais.

Assim como não há sentido na adoração irrefletida, também não há espaço para o ódio fomentado, muitas vezes, pela ignorância e/ou pelas referências propositalmente equivocadas. A política é para ser vivida e defendida por gente como a gente.


Marcos Marinho é professor e consultor político.

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