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  • M. Marinho

Mente, mas está do nosso lado

Uma das poucas crenças capazes de reunir a grande maioria do povo brasileiro é a de que os políticos mentem. A representação social da classe política, atestada em estudos científicos, é bastante ruim. O modo como as pessoas significam os atores políticos e julgam suas atuações é sempre carregado de dúvidas e descrédito, e isso não é uma prerrogativa só dos brasileiros. Pelo mundo, em vários países, a percepção é similar.


Associa-se quase que naturalmente a palavra político à palavra corrupção. De forma generalista e sem qualquer aprofundamento em informações e investigações que possam corroborar com tal percepção, quem já está predisposto a pensar assim – geralmente por ter recebido esta representação desde o berço – segue cristalizando sua opinião dia a dia.


O mais curioso é que uma questão como essa, que poderia ser adotada como padrão em relação aos políticos, não parece se abater sobre todos da mesma forma, mesmo quando há evidências de que alguns são mentirosos contumazes. Intriga-me a facilidade com que muitas pessoas automaticamente se colocam no papel de juiz e carrasco de alguns atores políticos a partir apenas de mensagens em redes sociais ou no WhatsApp. Porém, quando se trata de alguém de quem gostam ou de quem, na visão dessas pessoas, está do lado daquilo que acreditam, as coisas mudam radicalmente.


De antemão aviso: não me refiro aos fanáticos, pois estes são naturalmente blindados contra dúvidas que possam surgir sobre a angelicalidade de seus adorados; nem dos dogmatizados que não colocam qualquer crítica sobre seus líderes por acreditarem que são homens e mulheres ungidos pelo próprio deus. Estes são casos perdidos.


Quero aqui refletir sobre a precepção negativa em relação aos milhares de atores políticos que não estão sob o manto de alguma estrela ou de alguma bíblia e trazem, em si, aparentemente, a marca da desonestidade. Homens e mulheres que colocaram suas biografias em jogo para atuarem na seara política e são automaticamente jogados na vala dos impuros, mesmo que não haja qualquer coisa que lhes desabone.


Esses, sem mitologias ou unções divinas, são amaldiçoados e precisam lutar diuturnamente para provar que suas inteções são nobres e seu trabalho é, igualmente, digno. Nesses casos não basta ter boas intenções, não basta ter um histórico limpo, não basta ter nome e sobrenome que remetam a um passado íntegro. Esses terão que enfrentar, a partir do dia em que comunicarem o desejo de “entrar para a política”, a pecha de interesseiros.


Minha principal intenção com este texto é levantar os seguintes questionamentos: será que a raiva que as pessoas manifestam ter em relação aos políticos é horizontal ou depende de que lado este político está? Será que a fúria moralista que diz lutar contra a corrupção é generalizada ou depende de quem é o corrupto em questão? Será mesmo que certas pessoas não tem seus “bandidos de estimação” bem guardadinhos debaixo da fúria contra os “bandidos alheios”?


Marcos Marinho é consultor e professor de Comunicação Política.

*Artigo publicado originalmente em 09/01/20, no jornal O Hoje. (http://flip.ohoje.com/public/impresso/4807/4807.pdf)

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